quinta-feira, 9 de abril de 2015

O Canivete do Marumbi

"Quando estávamos procurando a trilha, vi que procurei uns 20 metros antes da entrada correta, Roberto quase entrou nela mas nem iria perceber, pois ali não se vê que é uma trilha. Não há rastro. Realmente, quem sabe, sabe. Quem não sabe fica chupando dedo ou mete as caras e, lógico, pode se dar mal."

 Agora falta pouco... 
          Sempre quando subimos uma montanha e o cansaço aperta, essa máxima vem em nossas mentes. 
Porém, dessa vez, esse “falta pouco” não se referia apenas a chegada ao cume do Facãozinho (1.100m), mas sim à visita aos cumes que compõem o Conjunto Marumbi, composto por 9 montanhas bem distintas e com altitudes variantes entre 625m  a 1.539m.  Para mim e meu inseparável amigo Roberto faltavam apenas duas.  
          Nas vésperas do feriado de Finados conversamos e decidimos que iriamos atacar o Facãozinho e, se desse tempo, ir até  o Boa Vista.
Seguimos, 02 de Novembro de 2011 para o Marumbi. 
          O problema é que a trilha  de acesso está fechada  mais de 30 anos. Roberto a conhece de tempo passados, onde me contava que a interdição, 30 anos atrás, era extremamente necessária. Meu amigo marumbinista, contava-me que mais da metade do percurso era feita com contato visual direto com o restante do conjunto e a subida era feita através de uma valeta de barro vermelho, extremadamente lisa, evidenciando em suas encostas a fragilidade em que se encontrava a trilha. Relatava também, que o cume era amplo e desmatado, onde quem chegava ao seu ápice, ficava “lagarteando” por ali, curtindo o visual .  
          Saímos da Estação Marumbi um pouco mais de 10:00 da manhã, dois anos antes estávamos olhando o mesmo Marumbi do cume da Torre da Prata (1502m). Porém, com a trilha proibida  três décadas, o mato tomou conta e a entrada estava, é claro, escondida. Partimos com os croquis nas mãoscontando os passos para achar a tal entrada do cruzo. Subindo barrancos, cruzando rios, escorregando ribanceira abaixo e nada. Procura aqui e procura ali, achamos uma referência, perdemos mais uma meia hora para conferir se estávamos corretos. Andando alguns metros a frente e nada de trilha. Decidimos então que era hora de subir a encosta bodejando um vale. Com a encosta íngreme, rasgando mato no peito e quebrando algumas taquaras secas, dei graças a Deus por não estar subindo de cargueira.  
          Sem achar a entrada correta da trilha, fomos pelo rumo. Estava meio apreensivo pois estava indo muito para a esquerda e pensava algumas vezes em corrigir a rota para não andar em círculos, porém como estava  indo para o rumo do Facãozinho que fica mesmo à esquerda e com o Roberto me alertando para seguir sempre pela crista, com dois vales um de cada lado, fui seguindo em frente. Depois de alguns consideráveis minutos, quase se fazendo hora, ia desviar o caminho  um pouco para a direita mas uma árvore caída me fez deixar tomar essa decisão do outro lado dela. Logo depois de passa-la pela esquerda, eis que chegamos a uma trilha, muito pouco batida. Averiguamos e tivemos a certeza de que se tratava mesmo de uma trilha e não de um caminho de água.  Fomos andando e logo aparece os sinais do caminho certo: Uma sacolinha branca,  uma batida de facão e para tirar a prova, a fitação laranja. Sempre subindo, fomos ganhando altitude e, após uma janela, começamos a entrar em uma mata mais rala e dura, cheia de taquaripoca. Alias, esses ramos já eram o terror nas décadas de 40 e 50, pois há relatos de Rudolf Stamm reclamando do crescimento delas em 1 ou 2 meses, obrigando-os a fazer uma retificação e manutenção na trilha constantemente. Com o ganho de altitude verificamos também a trilha um pouco erodida naturalmente mas nada que justifique a constância na proibição de uso dessa trilha. Alias, aquilo tudo esta uma quiçassa sem fim.  
          O lugar que é  "usado" como cume, na verdade não passa de um local improvisado e apertado, logo abaixo do cume verdadeiro. Daqui, somente de pé, se avista o restante do Conjunto Marumbi, o Rochedinho, a linha férrea, o Pico do Diabo, a Estação e, é claro, o grande gramado do Marumbi,  que onde se enxerga de praticamente qualquer lugar do conjunto, tamanha a falta de mata do local, sem falar em construções com suas cores chamativas, destoando totalmente do ambiente, o amplo gramado é visto ao longe. Va bene! 
          O caminho que se segue vai em direção ao Vale dos Ovos e se encontra como a trilha “Pau do Maneco” e seguem juntas ate os campos do Boa Vista. Subimos em duas árvores para enxergar alguma coisa, mas como dito acima, o mato tomou conta de tudo e tivemos apenas uma noção do que nos esperaria a frente. Chegar ate ali sem facão foi um tormento e seguir por ali, naquela hora, seria tremenda idiotice. Roberto e eu estávamos satisfeitos com a transgressão daquele dia e resolvemos voltar daquele ponto mesmo. Descemos rápido e identificamos o ponto onde tínhamos interceptado a trilha verdadeira. Desse ponto até a entrada da variante não passou mais que 10 minutos. Realmente tínhamos dado uma volta considerável pelo outro lado do vale.  
           Quando estávamos procurando a trilha, vi que procurei uns 20 metros antes da entrada correta, Roberto quase entrou nela mas nem iria perceber, pois ali não se vê que é uma trilha. Não há rastro. Realmente, quem sabe, sabe. Quem não sabe fica chupando dedo ou mete as caras e, lógico, pode se dar mal. 
          Dessa vez, ou contrário da forma com que escrevo, não tem dicas, nem receita, nem jeito de fazer ou chegar lá. Vou contrariar as expectativas. Vou ser, como no Facãozinho, um transgressor. 
Facãozinho, assim como todo o restante do Conjunto Marumbi, é sagrado. Merece ser desbravado. 
trilheiro que anda por lá tem que mostrar seu valor e mostrar de que é capaz. Portanto, dessa vez não vou dizer como se faz para chegar lá. Seria, deveras, uma falta de respeito. 
          Mas, como sempre, vou alertar: Não suba o Facãozinho achando que ira achá-lo como canivete, pode ser que você encontre um grande e afiado machado à sua frente!

 

Um comentário:

Anderson EP disse...

Parabens por sua aventura e seu relato!!! Certeza de uma boa leitura sempre. Abracos!!!