sexta-feira, 24 de abril de 2015

“Projeto MARUMBI Completíssimo em 1 dia”

"Eternamente molhado, é um ótimo local para despencar em caso de poucos cuidados. Logo a frente, embora não tenham contato visual, sabem que seu próximo destino está logo à frente, tal qual um monstro contorcido, pronto para engolir qualquer um que ouse desafiá-lo."

-- O Pré- Projeto – (O início de tudo!)

          Em 1973, tendo em vista a dissolução de dois grupos antagônicos, os Bebuns e Mamuca (Marumbi, Mulher e Cachaça), alguns servindo o exército, outros casando, estudando, dando, ou coisa que o valha, sobraram eu da turma do MAMUCA e outro do Clube dos Bebuns. Para não morrer, montamos uma sociedade e comprando um terreno, construímos uma casa onde fomos felizes para sempre enquanto durou.
         Durante a semana fomos respeitáveis trabalhadores em Curitiba e nos sábados domingos, feriados, férias, o Marumbi era nossa praia. Passagem de ano com direito a guerra de foguetes contra nossos vizinhos, festas de São João com grande fogueira, semana de carnaval com proibição de falar no assunto, eleições para prefeito da República Livre do Marumby, que depois virou monarquia; e entre uma trepada e outra, também trepávamos nos morros, ou era ao contrário não lembro.
         Muita gente festando, pois como o poema, nas horas de riso a casa está cheia e tem gente apinhada, cascateando alegrias. Em uma semana levávamos a família, as namoradas; aquilo tudo era um santuário. Na semana seguinte era a da festa e das meninadas.
         Mas chegaram as paixões, os nenéns, as responsabilidades. Tudo virou família. E foi bom enquanto durou. Tive que pensar no futuro e arrumei um emprego decente que me impedia de encontrar os amigos, pois minhas folgas eram só durante a semana. Acabei deixando de ir, pois se os dias passados sozinho na serra são lindos, as noites são cheias de fantasmas, (risos). Os anos de zoeira acabaram. Vieram as caras-metades, os filhos, a idade. Do original restou a fachada.
         A casa está lá, e um dia voltei; não só, mas sim com amigos.  (Roberto M. Carneiro – O Robertinho)

-- O início de uma utopia—

        Em 27 de Junho de 2010, três montanhistas: Luiz Suzuki, Roberto Carneiro e Rafael Kozechen (Papael), resolveram ir ao Marumbi fazer o Conjunto (subir a trilha branca ao Olimpo (1539 m) e descer pela vermelha-noroeste-) com um diferencial, iriam realizar um desvio para o Abrolhos (1200 m). Para maiores informações vide vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=OhF-1I_IHV8 )
       Em 06 de Novembro do mesmo ano, encaminharam-se novamente ao Marumbi para, dessa vez, fazer o caminho inverso e fazer um desvio para a Esfinge. Para maiores informações vide vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=AGrkj3gshDU ).
       Na descida, entre uma parede e outra, olharam para os lados e perceberam que havia muita coisa para conhecer: Torre dos Sinos, Facãozinho e Boa Vista.
        Entre uma conversa e outra surgiu a ideia de fazer o Conjunto Marumbi Completíssimo, andando por todos os 9 cumes que compõem o conjunto em 2 dias, porém, como o acampamento nos cumes do Marumbi se faz proibido, ponderaram que deveriam fazer essa “pernada” em apenas 1 dia. Coisa pesada!
         O tempo foi passando e outros sonhos foram sendo conquistados, Janela da Conceição, travessia do Ciririca “por cima”, etc....; e os laços de amizade entre Robertinho e Papael foram se estreitando.
        Com Marumbi marcado, Roberto e Papael seguem no dia 03 de Março de 2012 para o local e, devido à chuva, abortam a subida que tinham marcado. Com uma breve estiada, seguem pelo Parque visitando Pedra Lascada, túnel do Rochedinho, Viaduto do Carvalho e Ponte São João, no retorno, sobem pelo túnel do Rochedo e atingem o cume do Rochedinho; do alto, marcam que a Completíssima deveria passar pela Pedra Lascada e Rochedinho pelo túnel, descendo pelo outro lado, encontrando com a frontal do Olimpo. Em conversas posteriores, abandonaram a ideia, pois 30 minutos poderia fazer falta ao final do projeto, pelo suposto avançado da hora. Portanto, subiriam e desceriam o Rochedinho (1º cume) pelo caminho normal, encontrando e seguindo pela frontal do Olimpo até o desvio do Facãozinho.
         Em 14 de Abril de 2012 a Torre dos Sinos era o objetivo, torre separada de todas as outras, quase uma ovelha negra, mitológica, mágica, difícil! Ao galgar a crista que dá acesso a esse outeiro, percebem que pouco se usa a trilha dessa montanha tão inóspita.  A dupla errou a entrada por apenas 5 metros, encontrando a picada minutos depois e logo passam pela mítica “Passagem da Torre”, que haviam lido em relatos e pesquisas, pois os mesmos não utilizam GPS (Global Position Satélite). Depois que atingiram o ápice rochoso pensam:  Agora falta pouco!
          Obstinados, semanas depois Roberto faz a troca para um veículo com tração 4x4, o que asseguraria a chegada a Estação Eng. Lange bem mais descansados do que se fossem a pé a partir de Prainhas.

- O Projeto –

          Enfim, após preparativos normais, na tarde de 04 de Maio de 2012, uma sexta-feira, a dupla parte para o Marumbi, mesmo com a previsão do tempo nada favorável. Enfrentam a péssima manutenção da Estrada de Prainhas, diante da infinidade de valetas, com tamanha profundidade, que por vezes pensavam que não conseguiriam chegar motorizados a Estação de Engenheiro Lange. Com esforço, alcançam o ponto final para veículos e seguem sem problemas, porem embaixo de chuva, a Estação Marumbi (485m).
          Acordam as 03:15 da manhã para o início da caminhada e após um café reforçado, mas com 15 minutos de atraso, as 04:15 saem em direção ao Rochedinho (625m). Avançam devagar devido a escuridão, num breu misturado com neblina que inspirava uma sensação assustadora. A passos certeiros, subiram ao primeiro cume da investida e cumprimentam-se com as mãos calcadas uma a outra, em sinal de amizade e confiança, ritual esse que se seguiriam pelo resto do dia a cada objetivo alcançado. Sem demora, retornam ao cruzo da Frontal, chegando nesse ponto as 5:00 hs.
          Realizam o desvio do Facãozinho minutos depois e, sempre subindo, encontrando-se com o alvorecer. Percebem, com o corpo já totalmente encharcado, as paredes gigantes da colossal montanha crescendo do lado esquerdo, e com as águas raivosas do rio Taquaral rugindo logo abaixo. As 07:00 da manhã se cumprimentam com mútuo aperto de mãos, selando a chegada ao segundo cume do dia: Facãozinho (1.100m). Fotografia apenas para registro, pois, como previsto, o céu estava totalmente nublado e a mata molhada.
         Descem a encosta e contentam-se ao cruzar o Vale dos Ovos em menos de 15 minutos e verem que se encontram na Picada do Pau do Maneco. Fazem breve descanso em um riacho, captando água para todo o restante do trajeto e preparam-se para a subida que antecede o cume do Boa Vista.

          Os montanhistas alcançam o campo de altitude e a relva dourada que se esparge pelo relevo abobadado a 1491 m. que marca o cimo do Boa Vista pontualmente as 09:05 hs e realizam a primeira grande parada para o café. Cumprimentam-se e descansam, 40 minutos depois, com os corpos tremendo de frio, saem em direção ao vale que leva ao bloco rochoso do Olimpo.
          Chegam sem problemas a Pedra da Lagartixa, porém, a partir daí o caminho segue um pouco mais dificultoso devido aos lances de rocha que se seguem e com a mata cerrada impedindo o avanço. Alguns minutos mais tarde, as 11:00 hs se veem no ponto sublime do maciço rochoso do Conjunto Marumbi (1539m.). Respirando um pouco mais aliviados, veem que ainda estão 45 minutos adiantados do que o plano inicial. Descansam com o olhar perdidos para os campos e outros píncaros que nesse dia se escondiam por entre as alvas brumas que insistiam em velar o andamento dos aventureiros; comem rapidamente e, após cumprimentos, fotos e registro no livro de cume, partem para o cume largo do Gigante (1487m). 


Passam sem problemas e seguem observando atentamente para não perderem a entrada da Torre dos Sinos. Perder a entrada de qualquer um dos objetivos seria perder preciosos minutos que fariam falta no derradeiro objetivo, que seria alcançado logo mais tarde.
          Entram à esquerda pelo Desvio da Torre e sem titubear, seguem pelo caminho pelo qual andaram 1 mês e meio antes. Logo alcançam a Passagem da Torre: Esta peculiar montanha está separada por todos os lados das demais. Entre a Torre e o Abrolhos se encontra o Desfiladeiro da Catedral e entre a Torre e o Gigante fica o Desfiladeiro dos Sinos. Uma passagem estreita, que não dá chance para vacilos; e do outro lado segue uma parede íngreme que também não deixa margem para titubeios. Minutos a frente e já estão a pouca distância do cume. Às 14:10hs cumprimentam-se novamente, no alto da pedra onde jaz duas pequenas traves de ferro, usadas para estaquear uma antiga caixa de cume, que marcava o cume da Torre dos Sinos.

Os aventureiros fazer o caminho de retorno, galgando as mesmas centenas de metros que andaram minutos antes, enfrentando a parede e a subida da trilha, chegando rapidamente até o cruzo da trilha principal.
Agora já com o terreno dominado, porém com o cansaço dominando-os, desenvolvem até o cume de mais um píncaro, atingindo as 15:10hs o 7º cume da empreitada. Mais um aperto de mãos na cabeça do felino do Marumbi, a Ponta do Tigre.  
Realizam a descida, sem visual, até o apartamento nº11 e dali realizam o desvio para a Esfinge. Comentam se deveriam deixar esse cume de fora. Roberto corajosamente comenta: “Número 7 é número de mentiroso! Vamos colocar os cumes restantes no bolso!"
Sobem sua parede escorregadia, passando ao lado da enorme greta que os ladeia. Envolto entre as nuvens, realizam seu ritual habitual às 15:48 hs na mítica Esfinge. Agora era hora de cuidados redobrados, pois o cansaço e o frio tomavam conta nos corpos açoitados dos dois montanhistas.
Desenvolvem a descida da parede da Esfinge vagarosamente e, uma vez mais no Apartamento nº11, entram no Desfiladeiro das Lágrimas. Eternamente molhado, é um ótimo local para despencar em caso de poucos cuidados. Logo a frente, embora não tenham contato visual, sabem que seu próximo destino está logo à frente, tal qual um monstro contorcido, pronto para engolir qualquer um que ouse desafiá-lo.
Já cambaleantes, alcançam o cruzo que os levaria para o píncaro do outeiro preferido de Roberto. Param, ponderam, argumentam, decidem!
Nesse trecho, estava marcado um longo descanso de duas horas, antes de cruzar morro acima. Seria hora de recarregar as energias, sono, hidratação, de últimos acertos.  Porém, Roberto comenta com Papael que já não tinha forças nas pernas, se ousassem parar pelo tempo estimado, ele não levantaria mais, porém, subiria nem que fosse se arrastando até o cume. O Abrolhos estava esperando-os.
E lá vão, com bravura, com os corpos em frangalhos, subindo a escarpada trilha para o "preferido". Roberto, puxando o peso do corpo apenas com os braços pois suas pernas pouco podiam ajudar, e Papael com palavras de incentivo, enchem o cume do Abrolhos com salvas e um abraço destemido, pisando às 18:20 hs os 1.200m do 9º cume, o Abrolhos.
Descem novamente ao cruzo, e agora mais tranquilos, fazer o retorno da bem conhecida trilha. Realizam a descida de forma contida, porém, com surpresa, veem que alcançaram as pedras do calçamento que marcam o início da Vila com menos de 2 horas de descida.
Com as roupas sujas e encharcadas, corpos surrados porém com sorrisos nos lábios; chegam ao ponto de partida, pontualmente às 20:15hs, coroando com louros as 16 horas que andaram. Cumprimentam-se, completando o ritual que haviam feito durante cada etapa, as mãos se tocaram mais uma derradeira vez, selando para a eternidade sua amizade. Brindam, sorriem, têm consigo que realizaram um grande feito. Têm consigo que combateram o bom combate e firmaram de vez a sua parceria por todo o sempre.
Talvez alguns montanhistas ou alguns atletas atuais, incautos, dirão que podem fazer esse trecho em metade do tempo ou menos. Alguns, quando a dupla comenta sobre a “Completíssima” afirmam: Mas eu fiz em 12 horas! E os protagonistas os respondem: “Todos os 9?” e esperam o olhar de dúvida que sempre surge na face dos seus inquisidores.
Desculpe se soar de forma arrogante, porém vou correr o risco:
Talvez faça... Duvido!
Porque, naquele fatídico ano de 2012, Roberto estava comemorando a juventude de seus 61 anos de idade.
E então, topa o desafio?

3 comentários:

Getulio (gvogetta) disse...

Hehe! Boa!

E nem interessa saber se alguém faz ou não em menos tempo! Aliás eu, como muitos outros, vamos para as montanhas para demorar mesmo, não para perseguir troféus ou recordes de velocidade.

Como já disse Messner: "O tempo que estes homens passam nas montanhas é o tempo em que eles realmente vivem..."

Abraços!

Henri's page disse...

Showww

Henri's page disse...

Showww